Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Garça Triste, poema de Castro Alves



Eu sou como a garça triste
Que mora à beira do rio,
As orvalhadas da noite
Me fazem tremer de frio.

Me fazem tremer de frio
Como os juncos da lagoa;
Feliz da araponga errante
Que é livre, que livre voa.

Que é livre, que livre voa
Para as bandas do seu ninho,
E nas braúnas à tarde
Canta longe do caminho.

Canta longe do caminho.
Por onde o vaqueiro trilha,
Se quer descansar as asas
Tem a palmeira, a baunilha.

Tem a palmeira, a baunilha,
Tem o brejo, a lavadeira,
Tem as campinas, as flores,
Tem a relva, a trepadeira,

Tem a relva, a trepadeira,
Todas têm os seus amores,
Eu não tenho mãe nem filhos,
Nem irmão, nem lar, nem flores.

Castro Alves

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Autorretrato, por Itárcio Ferreira



Não pedi para estar aqui. Não pedi para ter consciência de que existo. Acho que esta é a pior tortura que possa sofrer um humano. Após os 50 anos, o que é o meu caso, tudo é excesso. Excesso de vida, amor, tristezas e derrotas. Sou um derrotista campeão. Sempre fico do lado perdedor. Histórias não faltam.


Para não estourar, de repente, em um suicídio fracassado, sempre busquei as artes e o álcool. Eles têm um quê de alívio que a tudo supera. As demais tentativas de fuga, fora desta dupla, se mostraram falhas.

Primeiro casei, aos dezoito anos – antes disto, em lembranças que não possuo, tive pólio com um ano de idade – tive filhos, precisei trabalhar cedo, abandonei a música, ainda em aprendizado incipiente – mas, hoje tenho a consciência da falta de talento, o que diminui minhas dores.

A bebida é uma fuga espetacular, mas o corpo físico não nos compreende. Talvez por isso aprendi a amar – na verdade não sei o que é o amor – os livros, os poemas, os romances. Sou, em resumo, um fugitivo, e enquanto os excessos de anos dão-me vida, diminuo os sofrimentos através dos livros, pois, covarde para cair fora por conta própria.

Jair Rodrigues - "Bigorrilho"

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Auto Retrato, por Marcia Denser



Paulistana, 27 anos, descendência miscelânica peninsular teuto-ítalo-meridiana. Ex-aluna de colégio de freiras. Das formandas de 66 sou a única solteira. A literatura em moda é a latino-americana, mas prefiro Júlio Cortázar, um francês. Os peixes do terceiro mundo nadam melhor fora d’água. Quando pediram para falar de mim mesma a primeira coisa que me ocorrer foi começar dizendo que nasci a 23 de maio, sob o signo frio, mercurial e dualístico de Gêmeos. Desisti. Iam pensar que estava dizendo isso porque sou mulher e às mulheres supostamente só interessam modas, novelas e putoroscópios. O que é verdade (e é mentira). Porque há uma parte de nós que jamais abandona o ordinário, o vulgar do sexo. Assim como nos homens, supostamente, a engenharia mecânica, o cinema de ação e o futebol na tevê. Nada mais comprometedor do quê falar de si próprio. Mesmo que isso seja delicioso. Escrever nada tem a ver com essas notícias que a gente lê a respeito do famoso escritor e seus gatinhos chineses, suas aquisições amorosas, duas piorreias. Nada disso. O que escrevo não são exatamente contos, são exercícios de captação de fragmentos da realidade. Imaginem uma câmera fotográfica na mão duma criança. A apreensão, em primeiro plano, de detalhes insignificantes como um dente cariado, pedaços de seios desnudos, o rendilhado rápido dum chale. Uma inocência ternamente perversa a fotografar o caos e, sem querer, revelar verdades inconfessáveis: uma objetiva inocente, que apenas registra, não julga.

A literatura resta então como o núcleo amarelado e doentio no centro da esmeralda, a sua depuração petrificada; fosforescência estagnada de um farol no fundo de um lago pantanoso, restos de licor de menta num copo de fundo falso. A literatura é como o centro de uma icterícia, vagalume morto na costura interna de uma bolsa de veludo negro, reflexo duma estrela numa poça de óleo diesel, fagulha de cuspida no dorso de um rinoceronte adormecido, resto endurecido de sêmen numa perna branca debaixo duma colcha de seda chinesa, poeira de microssulco enquanto continua tocando a música divina. Belas metáforas, não? Mas as metáforas, essas putas.

Tudo o que faço (fiz, farei) devo às minhas mutilações. Não devo ter muitas porque até hoje não realizei grande coisa (um primeiro livro, algumas antologias). Além de trabalhar oito horas por dia numa pirâmide de aço no coração da Avenida Paulista. Ou melhor, sete e quarenta. Compensado os sábados de danação e ressaca. Pertenço a uma geração cujos pais foram obscuros heróis do após-guerra. Daí o anonimato. Mulheres posam nuas sem legenda. Que melhor identificação que representar toda a espécie? As mulheres da minha geração perambulam pelo castelo em ruínas d casamento. E se possuem a chave da liberdade conferida pela pílula, nada podem fazer com ela. Deram-nos a chave, mas esqueceram de construir a porta. Nada mais inútil do que uma chave num castelo sem portas, não acham?

No mais, o amor, essa palavra tão esbelta. 


(in O Animal dos Motéis, 1981)

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Lilian Sais: "Manual Pornodidático para Homens - Uma amostra"


I 

raros são aqueles
que me beijam a sombra
entre as coxas:

pra maior parte sou apenas
buraco penetrável,
boca, cu e cona,

chegam logo me enfiando a rola
em dez minutinhos
de estocada frouxa

e está acabado:
meus caracóis ainda secos
e o macho já vira de lado.

pra um dei um manual
de anatomia, bem explicado,
mas ele entender zona erógena

foi trabalho de parto,
e meu metro de busto
permaneceu intacto.

tudo que digo agora é
vida longa às pilhas,
porque não anda fácil:

esse jeito de foder,
meninos, está todo errado. 


II 

pra homem tudo é uma questão de falo:
se a vara falha, a noite finda

eu a vida toda me queimando,
ávida, só com dois dedos em riste,

e o menino com dez não faz
nada, me deixa triste.

eu chego em casa frustrada
e mando o burro comer alpiste

- meu bem, de sexo ruim já estou passada,
foi a última vez que me despiste.